30 AGO 2008

Ciência, capitalismo e democracia

Por um diálogo cidadão entre cientistas e movimentos sociais no Brasil
A humanidade enfrenta hoje enormes desafios, decorrentes dos efeitos cumulativos de duzentos anos de industrialização, exacerbados pela aceleração do ritmo da pesquisa científica e da inovação tecnológica e sua difusão pelo sistema econômico, assim como pelas condições do capitalismo globalizado. São questões com as quais nenhuma cultura do passado teve que se defrontar, envolvendo a degradação do meio ambiente, as mudanças climáticas causadas pelas atividades humanas e a procura de energias renováveis; a conectividade global na produção atual de conhecimentos; as promessas e riscos presentes nas fronteiras da tecnociência, a forma como essas atividades são hoje realizadas, e o problema do seu controle democrático pela sociedade; o enorme progresso potencial que representam para o mundo moderno e a redefinição da própria condição humana.
Ciência, técnica e interesses sociais e econômicos estão hoje profundamente imbricados, interagindo e influenciando-se mutuamente; muitos movimentos que lutam por mudanças já perceberam que somente com uma apropriação cidadã ampla desses temas será possível enfrentar os desafios de nosso tempo. Essa percepção fundamenta a proposta de organizar, junto com o próximo Fórum Social Mundial, em Belém do Pará, em janeiro de 2009, de um “Fórum Ciência e Democracia”.
Como afirma a convocatória deste Fórum, lançada em fins do ano passado, “pensamos que a construção de um espaço de cooperações abertas, de debates públicos, amplos e democráticos, entre cientistas e organizações do movimento social em escala planetária abriria perspectivas novas para: 1) promover e desenvolver o estatuto de bens comuns dos conhecimentos da humanidade; 2) debater os desafios e os meios para a ciência e os cientistas exercitarem sua responsabilidade social; 3) reforçar a autonomia da pesquisa, defender as missões de serviço público da pesquisa, e melhorar as condições nas quais as atividades científicas são realizadas pelos estudantes, pesquisadores e engenheiros; 4) reforçar a capacidade dos movimentos cidadãos de produzir conhecimento e de ser parceiros das instituições científicas; 5) reforçar a capacidade das nossas sociedades, tanto ao Norte como ao Sul, de tomar decisões democráticas no campo das ciências e das tecnologias. Os membros da comunidade científica e os atores dos movimentos sociais precisam compartilhar seus conhecimentos especializados e suas concepções para construir uma sociedade mais respeitosa dos direitos humanos, das culturas e das necessidades sociais e ecológicas” (http://fsm-science.org/).
O êxito desta iniciativa dependerá, em grande medida, da capacidade de membros da comunidade científica e universitária e de movimentos sociais brasileiros estabelecerem esse diálogo já na preparação do evento, de modo que, como atores do país anfitrião, possamos fecundar o Fórum com os desafios e debates que nos mobilizam.
De fato, vivenciamos, por nossa condição dependente e pelas profundas desigualdades que marcam o Brasil, todos os problemas relacionados à ciência e à técnica contemporâneas de forma mais contundente: a apropriação privada dos frutos da pesquisa pelas corporações tem aqui um impacto devastador sobre os setores majoritários da população, que são marginalizados pelo mercado, reforçando a importância da defesa da ciência como bem comum. O descaso para com a atividade científica, a pouca autonomia concedida à pesquisa e a falta de garantia de seu caráter público predominam no capitalismo periférico. A fragilidade da sociedade civil cria dificuldades suplementares para a apropriação dessas temáticas, para se combater a mercantilização do conhecimento e disputar seu direcionamento perante os frente aos interesses dos distintos setores do capital.
Como é possível, nestas condições, desenvolver a ciência com responsabilidade social e compromisso público? Como podemos garantir as condições de acesso aos frutos da pesquisa pela maioria da população? Como podem a ciência e a técnica contribuir democraticamente para a superação dos problemas nacionais até hoje não resolvidos? E, mais ainda, contribuir para o enfrentamento das grandes questões que afligem o conjunto da humanidade?
É com essa pauta que conclamamos os membros da comunidade científica e universitária e os atores dos movimentos sociais do Brasil a participarem da articulação de uma rede brasileira “Ciência, capitalismo e democracia”, que terá como seu primeiro desafio organizar nossa participação no Fórum de Belém em 2009.

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