27 JAN 2008

Reflexividade, medo e choque

Que a reflexividade é uma característica central da sociedade moderna é um fato bem estabelecido pela sociologia contemporânea. As instituições do capitalismo atual incorporam ativamente todo conhecimento disponível para atingir seus objetivos, atuando estrategicamente e modificando-se sempre que necessário – uma das razões pelas quais a luta pelo conhecimento livre se torna cada vez mais decisiva. Da publicidade na construção do consumo e do consumidor às pesquisas de intenção de voto nas campanhas eleitorais, da flexibilização das estruturas de dominação social ao espetáculo, este processo vem em um crescendo à décadas, expandindo-se com as tecnologias da informação e da comunicação, a aceleração da inovação tecno-científica a e as redes.

Mas esta tendência cada vez mais forte da racionalidade sistêmica franqueou um novo patamar na globalização neoliberal, com o uso do consciente pelo poder do medo e de “terapias de choque” para paralisar a sociedade e manter sua fragmentação e desarticulação. Não é por acaso que dois livros recentes colocam esta como uma dimensão central do presente: Medo líquido, de Zygmunt Bauman, e The Shock Doutrine, de Naomi Klein.

Bauman contrapõe à busca de estabilidade, solidez e certeza da modernidade clássica à liquidez do mundo neoliberal, mostrando como lhe é inerente a construção da incerteza, da instabilidade, da insegurança social, sistêmica e existencial, uma sociedade onde todos são educados e compelidos à sentir medo para se contentarem em aceitar a precária segurança do “sistema”, que ao menos é conhecido! Klein, depois de dissecar o trabalho escravo por trás das marcas em Sem Logo, mostra agora – partido da analogia aos tratamentos de eletro-choque – como o capitalismo cada vez mais militarizado utiliza uma terapia de choque para manter as populações aturdidas e passivas perante agressões essenciais à sua sobrevivência. Duas leituras essenciais.

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