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26 JUN 2007

A sociedade depressiva

José Corrêa Leite

Um livro merece atenção de todos preocupados com a emancipação humana, Por que a psicanálise? (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000), de Elisabeth Roudinesco. Numa linguagem acessível, a autora historiciza e contextualiza a formação da psique contemporânea e a contribuição da psicanálise para o seu entendimento.

O ponto de partida de Roudinesco é tentar entender porque a psicanálise é hoje tão atacada por aqueles que defendem que apenas os tratamentos químicos são eficientes para enfrentar o sofrimento mental. Ela não contesta o uso destes remédios, mas afirma que "eles não podem curar o homem de seus sofrimentos psíquicos, sejam estes normais ou patológicos. A morte, as paixões, a sexualidade, a loucura, o inconsciente e a relação com o outro moldam a subjetividade de cada um, e nenhuma ciência digna desse nome jamais conseguirá por termo a isso, felizmente".

É porque trabalha a partir dessa realidade constitutiva da condição humana, que a psicanálise representa "um avanço da civilização contra a barbárie. Ela restaura a idéia de que o homem é livre por sua fala e de que seu destino não se restringe ao seu ser biológico. Por isso, no futuro, ela deverá conservar integralmente o seu lugar, ao lado das outras ciências, para lutar contra as pretensões obscurantistas que almejam reduzir o pensamento a um neurônio ou confundir o desejo com uma secreção química" (p. 9). "Nada jamais é decidido de antemão: a infelicidade não está inscrita nos genes nem nos neurônios" (p. 77).

A fuga dos conflitos humanos

Roudinesco nos apresenta a formação da subjetividade contemporânea de maneira clara e preocupante. Na medida em que o mundo é cada vez mais transformado em um mercado e "o ideal revolucionário tende a ser suprimido dos discursos e das representações" (p. 25), em que não parece ser possível nenhuma rebelião e a própria idéia de subversão parece ter se tornado ilusória, em que "a reivindicação de uma norma prevaleceu sobre a valorização do conflito" (p. 25), em que a utopia parece ter se retirado do horizonte, em que se impõe o conformismo próprio da nova barbárie do biopoder (o poder de governar o corpo e a mente a partir do discurso biologizante), um número cada vez maior de pessoas "buscam na droga ou na religiosidade, no higienismo ou no culto de um corpo perfeito o ideal de uma felicidade impossível" (p. 19).

A depressão se torna a forma de manifestação por excelência do sofrimento psíquico nesta sociedade, combinando tristeza e apatia, busca da identidade e culto de si, negação e fuga do conflito e aceitação da norma, afirmação da individualidade e rejeição da subjetividade. "Dando a si mesmo a ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito" (p. 14).

O deprimido não quer se dar tempo para refletir sobre a origem de sua infelicidade, porque isso significa ter que aceitar o conflito, lidar com "uma experiência subjetiva que coloca o inconsciente, a morte e a sexualidade no cerne da alma humana" (p. 35). A maioria das pessoas prefere alguma técnica de supressão dos sintomas, que se multiplicam. É o caso principalmente de medicamentos cada vez mais eficientes, que podem atender bem a uma situação de crise, a um estado sintomático.

O problema, para Roudinesco, está em que isso instaura uma nova forma de lidar com o problema de conjunto do sofrimento mental: "Quer se trate de angústia, agitação, melancolia ou simples ansiedade, é preciso, inicialmente, tratar o traço visível da doença, depois suprimí-lo e, por fim, evitar a investigação de sua causa de maneira a orientar o paciente para uma posição cada vez menos conflituosa e, portanto, cada vez mais depressiva. Em lugar das paixões, a calmaria, em lugar do desejo, a ausência de desejo, em lugar do sujeito, o nada, e em lugar da história, o fim da história" (p. 41).

O homem deprimido não acredita mais na validade de nenhuma terapia, porque ele não se dá tempo para refletir sobre a origem de sua infelicidade. "Aliás, ele já não se dá tempo para nada, à medida que se alongam o tempo de vida e o do lazer, o tempo do desemprego e o tempo do tédio. O indivíduo depressivo sofre ainda mais com as liberdades conquistadas por já não saber como utiliza-las" (p. 13).

Vivemos, assim, em uma sociedade depressiva. "Inscrita no movimento de uma globalização econômica que transforma os homens em objetos, a sociedade depressiva não quer mais ouvir falar de culpa nem de sentido íntimo nem de consciência nem de desejo nem de inconsciente. Quanto mais ela se encerra na lógica narcísica, mais foge da idéia de subjetividade. Só se interessa pelo indivíduo, portanto, para contabilizar seus sucessos, e só se interessa pelo sujeito sofredor para encará-lo como um vítima" (p. 42).

A construção do sujeito

A defesa da psicanálise por Roudinesco é a defesa do sujeito e da subjetividade - que vem sendo desconstruídos pela sociabilidade capitalista. "Quanto mais a sociedade apregoa a emancipação, sublinhando a igualdade de todos perante a lei, mais ela acentua a diferença... Cada um reivindica sua singularidade, recusando-se a se identificar com as imagens da universalidade, julgadas caducar. Assim, a era da individualidade substitui a da subjetividade: dando a si mesmo a ilusão de uma liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito" (p. 14).

A mercantilização de quase toda vida social, o consumismo como motivador básico dos incluídos e fonte de frustração dos excluídos, a extensão brutal da ação do fetichismo da mercadoria, a espetacularização da sociedade midiática e o narcisismo de egos cada vez mais sitiados pelo ampliação do biopoder e do caráter maquínico da sociedade, reduzem os indivíduos à passividade e à impotência.

A psicanálise não oferece uma "cura" para o sofrimento mental que deriva disso; o que ela propõe é auxiliar, através do tratamento psíquico pela palavra, na transformação da relação do indivíduo consigo mesmo, com os outros e com o mundo, de forma que ele aceite lidar com o conflito, as contradições e os limites e, potencialmente, se coloque como sujeito. Mas o indivíduo depressivo tem, como mostra Roudinesco, medo da liberdade: ele se recusa a pensar na origem de sua infelicidade. É-lhe mais cômodo enfrentar a angústia, a ansiedade e a depressão apenas com medicamentos que combatem os sintomas, sem ter de atacar suas fontes sociais e subjetivas.

A autora não é contra o uso de remédios, que desde a origem estiveram associados ao tratamento pela palavra na terapia psicanalítica. Mas é contra seu uso exclusivo, como defendem as chamadas ciências cognitivas, que negam a existência do inconsciente como estrutura dotada de significado. A história de vida do indivíduo não tem, para esta ideologia, nenhuma importância, pois deixa de existir o sujeito, para surgir o indivíduo como simples somatória de comportamentos a serem "ajustados".

O que a psicanálise faz, assim, não é permitir o acesso à uma suposta consciência transparente de si e da sociedade. Este mito pressuporia a possibilidade de identificação entre mente e consciência, como quer o cognitivismo - que em geral ignora também as influências extragenéticas, particularmente pós-natais, na arquitetura do cérebro. Trata-se, porém, de uma ideologia cientificista insustentável à luz dos nossos conhecimentos. De um lado, no terreno da neurologia, muitas pesquisas mostram a influência não só do ambiente "natural" mas também do meio social e da educação no desenvolvimento mental inclusive do ponto de vista fisiológico - por exemplo, os estudos sobre o aprendizado de línguas, que mostram que os bebês nascem com a capacidade de ouvir inúmeros sons e falar qualquer língua, plasticidade de sua estrutura cerebral que vai sendo gradativamente reduzida até a puberdade. De outro lado, a idéia de inconsciente vinculado às pulsões deu inteligibilidade às motivações subjetivas ligadas ao desejo, falta, amor, reconhecimento, agressividade, poder. A concepção de natureza humana que daí emerge está muito distante do otimismo racionalista do Iluminismo, mas parece ser a única capaz de dar conta da capacidade destrutiva (e, simultaneamente, construtiva) demonstrada pelos seres humanos, particularmente nas experiências traumáticas do século XX - a era das catástrofes (como chama Eric Hobsbawn) ou a da barbárie moderna (como quer Michael Lowy). O que evidentemente só reforça o papel humanizador e civilizador das instituições sociais indispensáveis à formação dos indivíduos como sujeitos - que só nestes marcos se tornam aptos a "pensar" e a "julgar", aptos a se constituirem como sujeitos morais. O homo sapiens se humaniza na medida em que forja instituições sociais e culturais que o tornam mais humano, que desenvolvem novas potencialidades criativas e os valores que permitem sua realização nos marcos de uma dada civilização.

A grande inovação freudiana foi, junto com a teoria do inconsciente, o rompimento com a idéia de que o ser humano seria um perpétuo alienado. "O sujeito freudiano é um sujeito livre, dotado de razão, mas cuja razão vacila no interior de si mesma. É de sua fala e seus atos, e não de sua consciência alienada que pode surgir o horizonte de sua própria cura. Esse sujeito... é um ser falante, capaz de analisar a significação de seus sonhos, em vez de encará-los como o vestígio de uma memória genética. Sem dúvida, ele recebe seus limites de uma determinação fisiológica, química ou biológica, mas também de um inconsciente concebido em termos de universalidade e singularidade" (69). Foi "por ter colocado a subjetividade no cerne de seu dispositivo que Freud veio a conceituar uma determinação (inconsciente) que obriga o sujeito a não mais se ver como senhor do mundo, mas como uma consciência de si externa à espiral das causalidades mecânicas" (p. 70).

Para a autora, a teoria freudiana é a única "a instaurar o primado de um sujeito habitado pela consciência de seu próprio inconsciente, ou ainda pela consciência de seu próprio desapossamento. Em outras palavras, o sujeito freudiano só é possível por pensar na existência de seu inconsciente". Ao associar uma filosofia da liberdade à uma teoria do psiquismo, a psicanálise foi "um avanço da civilização contra a barbárie" e deveria "ser capaz de dar uma resposta humanista à selvageria surda e mortífera de uma sociedade depressiva que tende a reduzir o homem a uma máquina desprovida de pensamento e de afeto" (p. 70).

A análise de Roudinesco nos esclarece como as instituições da sociedade totalitária do capitalismo globalizado agem para esvaziar o processo de constituição dos indivíduos como sujeitos, construindo pessoas incapazes de estabelecerem vínculos duradouros, de projetarem um futuro distinto e de criarem utopias. O importante avanço das biociências é, nesse cenário, apropriado em grande medida pelo discurso dominante para obscurecer o vínculo entre a estruturação da personalidade e as instituições sociais que a estabelece. Ele opera uma naturalização da psique e estimula sua crescente manipulação bioquímica - que reforça a manipulação do comportamento pelas instituições disciplinares e pelo biopoder.

Trabalho, repressão e política

O globalitarismo dominante alicerça-se sobre um paradoxo: a aceitação da ditadura cada vez mais dura do trabalho assalariado e do seu correlato, o desemprego, quando é possível suprimí-las, quando as condições para a superação social da escassez estão, pela primeira vez na história, dadas de forma inquestionável.

Este tema nos remete para os desencontros entre o marxismo e a psicanálise, uma dimensão decisiva do enfraquecimento do pensamento revolucionário no século XX. O freudo-marxismo do mundo germânico dos anos 20 e 30 foi incapaz de promover uma articulação coerente dos pensamentos de Marx e Freud - por uma má leitura dos dois teóricos, esquematicamente, uma visão simplista do marxismo como determinismo econômico (pelos marxistas) e uma concepção estritamente genital da sexualidade do freudismo (por exemplo, por Reich).

Porém a mais ambiciosa obra metapsicológica de Freud, O mal-estar na civilização, de 1930, também colocava uma questão difícil: a repressão das pulsões é a base da civilização. Nenhuma sociedade comunista poderia empreender a reconciliação do ser humano com seus impulsos fundamentais. Freud fundamentava isso principalmente (mas não só) na necessidade, frente à escassez, das sociedades canalizarem energias para o trabalho imposto, alienado, no qual as pessoas não podem se realizar. A humanidade estaria eternamente condenada à escravidão do trabalho e, portanto, a uma vida social alicerçada na repressão.

Uma resposta à esta análise só surgiu nos anos 1950, com Eros e civilização, de Herbert Marcuse: na verdade, como o capitalismo potencializou o desenvolvimento das forças produtivas e o crescimento exponencial da riqueza humana, podemos visualizar a libertação do jugo do trabalho, podemos vislumbrar uma sociedade regida por Eros - sociedade que, reorganizando o conjunto das relações sociais e o trabalho e tornando-o qualitativamente menos alienado, esteja centrada no tempo livre.

Nesse sentido, a sociedade capitalista passa a basear-se em uma sobre-repressão, uma repressão muito acima da necessária para que os seres humanos vivam em sociedade, pois eles, potencialmente (isto é, uma vez suprimido o capitalismo), já venceram a escassez. Claro que permanece a necessidade da internalização subjetiva de uma lei simbólica - isto é, a necessidade de proibições -, indispensável à socialização dos membros da espécie humana (que é o que nos torna humanos). A "grande recusa" marcuseana que deriva deste diagnóstico teve um papel importante nas rebeliões dos anos 60, porém não foi assimilada de forma duradoura pela esquerda nas últimas duas décadas - ver sobre isso a coletânea Herbert Marcuse: a grande recusa hoje, organizada por Isabel Loureiro (Petrópolis, RJ: Vozes, 1999).

Na medida em que a revolução tecnológica da informática promove um salto ainda maior na produtividade do trabalho, o resgate da utopia marcuseana torna-se mais candente do que nunca. Mas impõe também uma atualização da análise dos mecanismos de reprodução da dominação. Hoje, as alternativas mais gerais que se confrontam são o universalismo mercantil do globalitarismo e a reação defensiva frente a ele das identidades particulares que freqüentemente conduzem ao fundamentalismo religioso ou à xenofobia.

Freud nos ajuda a compreender tanto certas características gerais do ser humano na modernidade capitalista como a forma pela qual o indivíduo se torna, por sua história própria, um sujeito singular. O desvelamento das relações de determinação recíproca entre indivíduo e sociedade é central para qualquer teoria social e política comprometida com a emancipação humana. Ajudando a fechar a brecha entre a compreensão dos processos sociais mais amplos e da formação da subjetividade individual e coletiva, a teoria psicanalítica contribui para superar a polarização entre o universalismo abstrato imposto pela lei do valor e o particularismo culturalista empírico, capaz de apenas enxergar as diferenças. A releitura de Roudinesco da psicanálise é uma contribuição importante para a superação desse vazio teórico e para a atualização do diagnóstico crítico de nosso mundo.

Publicado no jornal Em Tempo nº 314/315, abril/maio de 2000.

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