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Malki: voracidade, consumismo, friezaVoracidade, consumismo, frieza: o esfacelamento da família e a impossibilidade de formação do Sujeito Yara Malki Este artigo examina a dissolução contemporânea da família tradicional e suas conseqüências para a formação de uma subjetividade relativamente autônoma, capaz de resistir à violência perpetrada pela totalidade social. Os aspectos regressivos da família tradicional são apontados. Sem que estes aspectos pudessem ter sido superados e que o lugar que ocupava de núcleo protetor do ser humano tivesse sido reposto, a família se esgarça e não consegue mais oferecer proteção diante do todo, que acaba entrando na vida das pessoas quase sem barreiras. Isso se evidencia na constituição frágil de personalidade que se forma quando as funções familiares, mostradas no artigo, não são cumpridas, resultando em sujeitos pouco capazes de sentir amor, gratidão, solidariedade, capacidade de pensar e de sentir pesar, fundamentais para uma civilização digna deste nome. Ao não conseguir superar seus aspectos primitivos, este sujeito é atraído a ter relações fetichizadas com as mercadorias e com a técnica, numa tentativa tanto de suprir - vorazmente - referências que faltaram em sua formação quanto de buscar procedimentos e condutas de vida já prontos para consumo, de modo que não precise pensar e sentir. Como estas formas de relação com o mundo são distantes e pobres, afetivamente, elas aprofundam os aspectos primitivos do sujeito e, portanto, a barbárie na sociedade de consumo. De tempos em tempos, uma nova febre de consumo domina as rodinhas infanto-juvenis. Já foi o grupo musical tal, a apresentadora qual, personagens e personagens de desenhos da TV, heróis e vilões do cinema, da novela e outros. Não se vai aqui sequer correr o risco de citar qualquer nome, pois certamente eles mofariam antes mesmo deste artigo ser publicado, tal a volatilidade do processo. Para cada nova onda, toda uma rede de suprimentos é devidamente oferecida. De meias a CDs, de lancheiras a lanchinhos, de bobagens tecnológicas a bobagens sem nenhuma tecnologia, uma enorme gama de produtos estampados com o mágico título de "o produto da fulana, do cicrano, dos beltranos do momento" é exaustivamente ofertada, fechando o cerco para o consumo até de quem não está tão aderido. Evita-se assim que partes muito significativas do desejo voraz e primitivo do fã de incorporar o objeto fetichizado escapem e deixem de ser revertidas em ação concreta de compra de um produto, instantaneamente idealizado. Muito embora o ritmo e a intensidade de tais paixões sejam próprias da adolescência, o movimento acima descrito é apenas uma fração mais visível de um processo bastante profundo de enfraquecimento do Sujeito como possibilidade histórica. E o aspecto que se gostaria de analisar deste enfraquecimento no presente artigo é o do vácuo de modelos identificatórios deixado pela família, o que termina por abrir quase inteiramente o caminho para as mercadorias fetichizadas entrarem violentamente na subjetividade, ocupando o espaço vago deixado pelos modelos. É uma forma de violência consentida, com toda a ambigüidade que a expressão permite. Na era da, como nomeada por Marcuse (1967), "mercantilização total", a "relação" da mercadoria com seu público é abusiva, sufocante, danosa. Ao mesmo tempo, buscada, desejada, permitida. O violentador é empurrado pela vítima com toda a voracidade para dentro de si - tubo oco que denuncia a insuficiência do Eu, numa tentativa de fazer as vias da identidade que falta. E a mercadoria é quase onipresente, pois tudo ou quase tudo hoje pode ser convertido em valor de troca - idéias, sentimentos, frustrações, alegrias... O assim configurado totalitarismo da mercadoria é também o da noção de que tudo é consumo e de que tudo esteja no mundo para ser consumido. A família ocidental tradicional, formada a partir de um casal que contrai matrimônio e posteriormente gera sua prole, desmonta-se. Em alguns países europeus cuja taxa de natalidade já é negativa, ela nem se monta. Não há neste artigo intenção de reproduzir o discurso conservador que vê como "errado" aquilo que está à margem do sistema dominante ou que é simplesmente diferente. Ou de reduzir tudo à questão da família, perdendo de vista que seu esfacelamento é um produto social e que, portanto, é preciso analisar as condições sociais que estão favorecendo este processo. Igualmente, não há intenção de se idealizar nostalgicamente a "família à moda antiga", como se ela não fosse portadora de muitos problemas. A violência não é marca exclusiva da atualidade, tampouco do Ocidente, mas cabe discutir aqui o tipo de violência que se pratica entre nós, e é apenas neste limite espaço-temporal específico que o artigo irá se deter. Deste modo, a quebra da família é uma das responsáveis diretas pela violência com que a totalidade social chega aos nossos membros, crianças e adultos. Para que o sujeito possa fazer frente à totalidade, é preciso haver Sujeito. E aqui temos que fazer uma diferença quanto ao significado de Sujeito (nome próprio) e sujeito: enquanto o primeiro denota o Indivíduo autônomo, no segundo o significado implicado é o mesmo de "pessoa. E a pedra fundamental do processo de formação do Sujeito é colocada na família. Poderia ser posta em qualquer grupo humano em que uma pessoa estivesse inserida desde o início da vida, que reunisse certas características que a família, especialmente os pais, reúne - afeto desinteressado, proximidade, convivência, continuidade no espaço e no tempo (se nada acontece a nenhum membro) e amor. Mas em nosso meio, é a família. Evidentemente, não basta ser "família" para reunir todas estas características mas, de todo modo, a família mostra vocação para ser um parêntesis, um refúgio contra a lógica de mercado que domina de forma praticamente hegemônica os outros espaços sociais. Por esta razão, o fim da família em si não é trágico. Trágico é ver escassear entre as pessoas elos mais próximos e afetuosos, relações particularizadas e nas quais a mediação da mercadoria não se faça tão presente. Adorno e Horkheimer (1956) trazem contribuições sobre o visível enfraquecimento do modelo de família tradicional. Mostram sua ambivalência, pois se tratava de um núcleo humano em que os mais fracos - filhos mais novos e mulheres - estavam submetidos à força paterna. Era calcada, portanto, na lei do mais forte. O vínculo, neste modelo autoritário, era mais de medo do que de confiança. Por outro lado, esta família era capaz de transmitir modelos identificatórios mais sólidos, uma vez que o contato da criança com os pais se dava de forma mais nítida e particular, algo que se está perdendo hoje. Adorno e Horkheimer (1956) ressaltam que nesta família, embora se aprendesse a obedecer as instituições a partir da obediência ao pai, muitas eram as lições que uma criança poderia aprender de uma mãe próxima e afetuosa. Dentro da psicanálise, Donald Winnicott provavelmente tenha sido um dos autores que mais frisou os danos que a falta de um vínculo singular entre mãe e bebê causam ao desenvolvimento da individualidade. Com a privação de uma relação afetiva singular (e continente), o que fica perdida é a possibilidade de a criança experimentar seus próprios afetos em estado bruto numa relação que seja amorosa o suficiente para propiciar que eles sejam transformados. Freud e a partir dele os pensadores da Escola de Frankfurt já assinalaram que o progresso da civilização deveria ter sido acompanhado pelo apaziguamento das pulsões. Seria preciso, portanto, viver os aspectos primitivos da mente mas conseguir superá-los, num movimento de conciliação e não de negação da natureza interna. Desenvolve-se com isso o ego e as funções de pensamento, que transformam as demandas pulsionais diretas e permitem que o homem pense sobre o que sente. Dito de outro modo, começa a haver mediações entre a pulsão e a ação. Com o desenvolvimento egóico, o homem também vai sendo capaz de perceber que há um mundo ao seu redor. Mais que isso, que o mundo não foi feito para magicamente servi-lo em suas vontades. O homem passa a dar-se conta de sua própria condição humana e da do outro. Ele faz, desta feita, o luto de sua onipotência infantil e com isso, apercebe-se de que as realizações do mundo não acontecem por mágica mas pelo esforço e trabalho de alguém. Ele também consegue ser capaz de sentir pesar acerca de seus atos destrutivos, pois passa a ver o outro de forma mais humana e compreende que seus ataques têm conseqüências, ou seja, podem danificar o outro. Esta pessoa também supera a dicotomia inicial da mente, que divide o mundo entre o idealizado e o persecutório, integrando seus aspectos bons e maus. O idealizado é finalmente percebido como ilusão e as angústias persecutórias são aplacadas, graças a uma visão mais realista do mundo. Na esteira destas percepções, que são verdadeiras aquisições mentais, é que o ser humano consegue desenvolver o sentimento de gratidão (Klein, 1956). Aliados, estes processos promovem este homem a um patamar mais verdadeiramente humano já que ele irá poder cuidar de si e do outro, pois não apenas sabe que há um outro no mundo, mas reconhece seus feitos. Neste estágio é que o homem é capaz de amar. Não mais o amor oralizado, que canibaliza a vitalidade do outro e a converte em apenas um instrumento para seus próprios objetivos, que idolatra e "adesiva-se" no outro, vivendo como sua extensão, mas o amor que se amalgama na alteridade e na diferença. E o amor é, nas palavras de Freud, um grande fator civilizatório da humanidade. Aliás, não apenas Freud mas Adorno vai mencionar o valor do amor para a civilização. Em "Educação após Auschwitz", vai escrever que "Sem a frieza, Auschwitz não teria sido possível" (1967, p.89). A falta de identificação do povo alemão com as vítimas do holocausto tornaram o holocausto possível. E a incapacidade de se colocar no lugar da vítima, de sofrer, de sentir compaixão, de ver a vítima como humano resultam da incapacidade para amar. Mas ele também observa que não é possível predicar o amor. O amor é imediato: não se compra de um profissional nem na prateleira do mercado, não se ensina a um pai, não se recomenda. Dá-se. Quem pode dar. E ele precisa de certas condições internas ao homem e externas a ele para existir. Trata-se de uma aquisição do desenvolvimento e não de um destino natural. Este desenvolvimento é socialmente determinado e as forças sociais regressivas, historicamente presentes no processo civilizatório do ocidente (Adorno e Horkheimer, 1944), atrapalham seu surgimento. Alerta Crochik (2001) que a aparência de vivermos num caos não nos deve enganar. Não vivemos num mundo caótico. Vivemos num caos pessoal, numa vida corrida, sem tempo, fragmentada, em que as partes não se reconhecem, mas as forças sociais que nos fazem viver assim estão, ao contrário, altamente organizadas. Como afirma Marcuse (1967), parece que nunca estiveram tão administrativa e racionalmente organizadas. Aumenta a alienação, o sufocamento, a impotência diante do todo. Sintomaticamente, aumentam também os casos de ataque de pânico e de depressão. Somos levados a funcionar como máquinas, dissociados, frios, sem raízes, sem vínculos, indiferentes. A barbárie é reforçada pelo sentimento de claustrofobia causado pela sociedade plenamente administrada (Adorno, 1967). Marx (1890) observa que o ritmo cada vez mais rápido em que o trabalhador de fábrica tem de trabalhar para se adaptar ao movimento dos fusos das tecelagens provoca uma inversão: o trabalhador vira instrumento da máquina. Na atualidade, este movimento mais que se hipertrofiou. O homem, para sobreviver, precisar ser a mimese da máquina. A máquina não pensa, executa. Não cria, reproduz. E assim se comportam os homens-máquina. E desde estando disseminada a idéia de que tudo é consumível, pessoas, sentimentos, idéias, experiências, o homem-máquina está pronto para assimilar modelos prontos para consumo do agir e comportar que se possa comprar na esquina - ou no site - mais próximos. A catexizacao da técnica, ou seja, o investimento libidinal na técnica, está presente segundo Adorno (1967) a partir do momento em que esta última converte-se num fim em si mesmo e que a frieza domina as relações pessoais. As pessoas não conseguem pensar nem sentir, mas não precisam: o "procedimento" já está formatado de antemão. A vida converte-se em mera reprodução de certezas já prontas. É a morte. Quando o mundo demanda e oferece como única oportunidade de "ser", o falso-self "ser máquina", é negada a possibilidade de se desenvolver individualidade, afeto e vínculos que não sejam os técnicos, os pragmáticos, os "que vão servir para alguma coisa". Muitos então ficam à procura de soluções rápidas, mesmo que isso custe a verdade, porque a angústia de não-saber mergulha o sujeito num abismo do qual não tem recursos internos para sair. A formação da identidade tem como primeiro passo a continência da angústia vivida pelo bebê pela mãe, numa experiência única, particular. Com efeito, a tarefa de maternagem é de uma sofisticação extrema. Mas, se a família não está propiciando isso, fora dela a homogeneização e o distanciamento afetivo é praticamente fato consumado. Na escola, no trabalho, nos grupos... raramente, numa cultura de massas como a nossa, existe a possibilidade efetiva de ser único. Nunca se falou tanto em "indivíduo", em "seja você mesmo", em "descobrir-se", mas raros são os espaços onde isto é mesmo possível. Além destes aspectos, há também a insegurança e a indiferença dos pais contemporâneos, aspecto bastante discutido por Lasch em "A cultura do narcisismo". Novamente, cumpre ressaltar que não se trata de idealizar o passado, colocando os pais "de antigamente" como padrões de perfeição. Até porque a oposição que se fez, especialmente a partir dos anos 60, ao modelo de família tradicional, autoritária, teve alguns ganhos inegáveis, como a aproximação do homem das funções de cuidado que antes cabiam só à mãe, fazendo a relação pai-filho crescer. A própria entrada da mãe no mercado de trabalho é outro ponto importante, pois livrou a mulher da opressão de ser dependente financeiramente do cônjuge. Entretanto, estes ganhos são ambivalentes. A inserção no mercado está se dando de forma tão agressiva que a mãe, assim como o pai, não têm tempo para acompanhar a formação de seus filhos. O que é mais, a título de combater o autoritarismo do pai tradicional, fez-se uma grande confusão que culminou na devassa da autoridade parental e em sua função de modelos. Pais e filhos passaram a viver relações horizontalizadas e distantes. Muitos não querem ser autoridade, não crêem que tenham algo a ensinar. Outros, não conseguem ser modelos ao se esforçarem para ser iguais aos filhos, numa tentativa de se defenderem do próprio envelhecimento (Lasch, 1983). Ao duvidarem cronicamente de sua capacidade para formar, os pais estão abdicando de seu papel como modelos identificatórios para seus filhos, deixando-os soltos, sem referências. E, no entanto, esta dificuldade é compreensível: como alguém que foi formado para não pensar e não sentir pode ser capaz de formar um outro ser humano? Neste panorama, o excesso de investimento libidinal na técnica apontada por Adorno (1967) não apenas tira dos pais a confiança em suas funções materna e paterna mas já é fruto deste próprio sentimento de incapacidade que passou a habitar as pessoas. Especialistas são convocados nas escolas, na mídia, crianças são encaminhadas para os mais diversos profissionais, porque "alguém tem de dar conta delas. É claro que não se preconiza aqui que se viva na ignorância, pois o conhecimento técnico, especializado, é um patrimônio fundamental para a humanidade. Mas é importante observar o quanto deste conhecimento não vai sendo usado para cobrir a distância que está se impondo entre as pessoas. O lugar hipertrofiado da técnica em nossa cultura oferece uma guarida, mesmo que fria, para a insegurança de quem não sabe quem é e o que deve fazer. Oferece aos pais e educadores um "modelo do agir e comportar" tão buscado em nossos dias e que entra no lugar da espontaneidade, da acolhida, do afeto, do pensamento. É a mãe técnica que Lasch (1983) descreve, uma mãe de manual, tecnicamente perfeita, mas gelada, distante: uma máquina. Educar, formar, é um exercício de entrega e paciência, condições raras num mundo que tem cultivado o imediatismo e a superficialidade. Além disso, quando os pais não estão conseguindo ser continentes de suas próprias ansiedades, dificilmente conseguirão ser continentes das ansiedades de seus filhos. O fraco desenvolvimento egóico das crianças vai gerar adultos infantilizados, que emocionalmente ainda estão necessitando serem cuidados e por isso assumem com muitas dificuldades seus papéis de cuidadores quando se tornam adultos. Juntando-se todos os elementos acima o resultado é que o cuidado das crianças desde muito cedo é terceirizado a profissionais que, por mais amorosos que sejam (e quando se encontram profissionais assim já é um diferencial), não são como pais amorosos simplesmente porque não são os pais. Não possuem o amor narcísico que Freud (1914) apontou ser tão fundamental, que torna-os capazes de devocao e entrega, que vai propiciar o espelho que vai constituí-las, ajudando-as a superar a fantasia de fragmentação. Por vezes, há mais de um profissional: a babá, a professora do período regular, a professora do período integral, os professores de balé, natação, judô, inglês, o motorista... É uma grande oferta de cuidadores. Esta pulverização aliada à pouca qualidade dos vínculos enfraquece a internalização de modelos identificatórios. Concomitantemente, Lasch (1983) observa o esforço de perfeição dos pais diante de seus filhos. Um superego arcaico, rígido, sádico, punitivo, domina a personalidade do filho ao lado de forças pulsionais não contidas e vai resultar na imagem que os filhos criam de seus pais tecnicamente perfeitos e afetivamente distantes. Enxergam-nos como onipotentes - podem tudo, não sofrem, não sentem dor, nunca erram. É a máquina por dentro. Na fragilidade dos pais como modelos identificatórios, este espaço fica aberto. Neste momento, a pressão da mídia encontra pouca resistência da audiência mirim ou adolescente, ávida por modelos: super-heróis, apresentadoras de TV, atores, cantores viram referências importantes quando os pais ficam distantes (Crochik, 1990). E não mais para serem emulados (Lasch, 1983) mas para serem devorados. O ponto problemático não é, evidentemente, que alguém tenha outros modelos identificatórios além dos pais mas de quem são eles e de sua importância. Modelos midiáticos não são bons modelos identificatórios. Por serem pobres e distantes, favorecem fantasias de idealização, persecutoriedade e onipotência nunca desfeitas, porque são fabricados e não reais. Por serem massificados não há como terem um olhar particularizado e por serem mercadoria, têm sempre segundas intenções na ligação que criam com a criança. Em lugar de desenvolvimento psíquico, o consumo vazio e desesperado. Ao sentir angústia, a criança terá aprendido sua lição: compre, consuma, distraia-se, gaste. As mensagens midiáticas, todas executadas no imperativo, ensinaram-lhe bem a preencher o vazio com soluções mágicas. Ainda assim, o mal-estar pode não ser debelado, voltando na forma de desconforto com o corpo, sensação de inautenticidade, impotência e infelicidade crônicos. Todavia, antes que possam ser pensados, muitas vezes estes problemas já estarão sendo medicados pela pílula dourada mais recente... Além disso, o modelo de pessoa ideal, perfeita, fruto do esforço midiático de "vender boas imagens", reforça o superego arcaico, subjugando o sujeito à sua própria auto-crítica e destrutividade. Se, portanto, a família cada vez existe menos, nem por isso ela faz menos falta. Adorno e Horkheimer (1956) ressaltam justamente a importância da família na proteção das crianças diante da violência do todo, o que não está sendo possível. As crianças, desamparadas, mergulham nas agruras de um mundo violento antes mesmo que possuam recursos para lidar com ele. Na agenda das crianças-executivas, por exemplo, o tempo de brincar sem compromisso vai se tornando escasso. Afinal, "apenas brincar" não é útil... A ironia disso tudo, entretanto, é que o aumento do desemprego, da concentração de renda, da padronização social, de fato, torna necessário que não se perca tempo na aquisição de competências, habilidades e conhecimentos que garantam, minimamente, um lugar para o sujeito dentro do sistema. A evidência de que a família não está conseguindo protegê-las disso é algo que transcende a própria família e diz respeito ao projeto de homem de nossa civilização. A situação mudou desde a observação de Adorno em Educação após Auschwitz: "As crianças, que nada suspeitam da crueldade e da dureza da vida são as que mais expostas se encontram à barbárie tão logo abandonam seu entorno protetor." (1967, p.89). O entorno protetor está se desfazendo e quase não existe mais. Yara Malki é psicóloga, Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e Especialista em Psicoterapia Psicanalítica, todos pelo Instituto de Psicologia da USP. Docente da Faculdade de Comunicação da Faap - ymalki@terra.com.br Referências Bibliográficas ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max [1944]. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991. ADORNO, Theodor W. [1967] Educación despues de Auschwitz. Educación para la emancipación. Col. Raíces de la memória. Madrid: Morata, 1998. CROCHIK, Jose Leon. Apresentação. In: SEVERIANO, Maria de Fátima. Narcisismo e publicidade: uma análise psicossocial dos ideais do consumo na contemporaneidade. São Paulo, Anablume, 2001. CROCHIK, J. A Escola de Frankfurt e a ideologia da racionalidade tecnológica. Psicologia USP, São Paulo 1(2): 141-154, 1990. FREUD, Sigmund [1914]. Introduccion al narcisismo. Obras completas de Sigmund Freud. Tomo II, 4a ed., Madrid, 1981. HORKHEIMER, M. e ADORNO, T.W. [1956]. Família. In: HORKHEIMER, M. e ADORNO, T.W. (Org.). Temas Básicos da Sociologia. São Paulo: Cultrix, Editora da Universidade de São Paulo, 1973. KLEIN, Melanie [1956]. A Study of Envy and Gratitude. The Selected Melanie Klein. New York: The Free Press, 1986. LASCH, Cristopher. Cultura do Narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983. MARCUSE, Herbert. Ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. MARX, Karl [1890]. A maquinaria e a indústria moderna. In: O capital. Livro 1, 1. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975.
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