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Multidões integradas ao espetáculoEugênio Bucci Publicado originalmente no Observatório da Imprensa em 22/04/2008
Surpreendido pelo reaparecimento do fator Leo Minosa, volto eu também a ele. Não porque haja algo que me caiba falar sobre o assassinato de uma garotinha de 5 anos de idade, mas pelo que o episódio reitera sobre o estatuto das multidões, grandes ou pequenas, em sociedades integradas por meios de comunicação de massa, eletrônicos ou não. É curioso observar como a internet – que, ao menos em tese, contribuiria para dissolver a antiga categoria da massa em múltiplos agrupamentos menores, cada qual com sua predileção – não revoga as marcas e as leis naturais mais profundas da comunicação... de massa. A despeito de tantas inovações, ainda somos, ao menos em parte, uma sociedade regida por velhos padrões de comunicação – e o sensacionalismo é uma afirmação enfática dessa verdade incômoda. Embora as novas possibilidades tecnológicas da internet tenham acentuado a autonomia individual e propiciado o fracionamento do público numa gama virtualmente infinita de temáticas e focos de interesse, as massas, as velhas massas, às vezes voltam a ganhar a cena pública, exatamente como há 15, 30, há 60 anos. Como para avisar que não morreram. É o que o fator Leo Minosa nos mostra. A condução do circo
A caverna fica numa montanha considerada sagrada pelos indígenas e já há os que acreditam que o rapaz ficou preso ali porque os espíritos queriam vingar-se dele. Tatum logo reconhece o imenso potencial sensacionalista da situação. Habilidoso, o jornalista consegue retardar o resgate e, em questão de dois dias, a história se converte em comoção continental. O xerife local começa a ver vantagens na exposição do caso e se alia a Tatum. Repórteres de todos os cantos do país chegam à Montanha dos Sete Abutres. Com eles vem a multidão sedenta de sensações, pronta para seguir de perto os lances mais emocionantes. Tatum conduz seu circo de modo calculado, submetendo a seus planos o destino do rapaz aprisionado. O nome do rapaz é Leo Minosa (vivido por Richard Benedict) e o show está apenas começando. Fazer acontecer
De sua parte, a multidão não foi atraída pelo suspense de saber se uma pobre alma soterrada sobreviverá ou não, mas, movida pela fome aparentemente sagrada de justiça, grita para apressar o desfecho da novela. Ela reivindica o clímax a que julga ter direito. O que agoniza em praça pública não é mais a vítima da violência, mas a reputação dos suspeitos. As massas querem sangue – físico ou moral, tanto faz. Elas não amam ninguém – não amam Isabella nem amavam Leo Minosa. Elas amam alucinadamente o êxtase das tragédias. Ao lado disso, ou acima disso, amam a sensação de ser aceitas no espetáculo, um amor infantil. Seguram o bolo para Isabella diante das câmeras com a mesma convicção com que abrem um cartaz onde se lê "me filma, Galvão" num estádio de futebol. Num caso, expressam-se com lágrimas. No outro, às gargalhadas. A finalidade é a mesma.
Há algo de perturbador na constatação, como se ela retirasse dos comuns do povo a condição de tomar a iniciativa, de fazer acontecer ou, como diz o refrão, de "fazer a hora". Não obstante, muitas vezes é disso mesmo que se trata. Onde muitos vêem "protagonismo" das massas, há somente isto, o fator Leo Minosa.
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